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19

May

The substance of it; not quite like I told you.

esta cena não está de facto no livro. o que é uma pena, porque gostaria de ler uma descrição da forma como o Sebastian beija as pessoas. enfim.

Evelyn Waugh não era uma mulher (apesar do nome poder enganar, mas foi exactamente por isso que dei o nome de Evelyn a uma tartaruga quando me disseram que só a partir dos oito anos se sabe se é uma tartaruga ou um tartarugo pelo que nomes que funcionem com homens e mulheres de igual maneira são ideais, e.g. Evelyn). Evelyn Waugh era um homem, que frequente tinha uma perspectiva bastante cínica. Senão do mundo, da sua própria escrita. Nada de excessos, nada de emotividades descontroladas acerca do meu melhor amigo de infância e do meu cão Bobby. Também tinha um sentido de humor bastante cortante, mas falaremos sobre isso mais tarde.

Em Brideshead Revisited, vemos uma faceta de Waugh que não vemos constantemente. Não vemos um Waugh que mantém o mundo à distância de um ou dois metros, vemos um Waugh que se entusiasma. Que escreve como um jovem que tem ainda aquele lustro da juventude sobre os olhos. Não é de admirar que mais tarde Waugh viesse a desconsiderar este livro, reprovando o idealismo e o fausto que despontam em mais do que uma passagem. Chega até a mencionar que é uma história de excesso, escrita em tempos de barriga vazia.

A história começa, como toda a boa história deve começar, in medias res. Charles Ryder (que dá o nome ao subtítulo), agora no exército inglês em plena Segunda Guerra Mundial, chega a uma propriedade rural onde ele a sua companhia deveriam ficar. Pouco a pouco, reconhece a propriedade, e percebe então que era uma que conhecia na sua juventude.

Em novo, Charles Ryder havia frequentado Oxford. É aqui que Waugh nos oferece o retrato de um pupilo oxoniano que não era nem dos mais brilhantes, nem dos mais excelentes. O pai de Charles isolava-se constantemente, e pedira ao primo de Charles que lhe fornecesse algumas lições básicas de sobrevivência na universidade, tendo o rapaz ignorado esses ditos em grande medida. Porém, a experiência universitária de Charles não se fica pelo mediocre: em breve conhece Anthony Blanche. Anthony é flamejantemente homossexual, gagueja, e reúne à sua volta algumas das mais excêntricas personalidades de Oxford. As vidas de Charles e de Anthony cruzam-se por acidente, e é numa das festas do último que Charles conhece Sebastian Flyte, um rapaz aristocrático que se faz acompanhar de um urso de peluche chamado Aloysius. O que se segue é um turbilhão de momentos da relação Charles/Sebastian: piqueniques, festas. É o típico “bromance” oxoniano, mas com as descrições luxuriantes típicas deste livro.

Mas não há bela sem senão, e Sebastian tem uma família quase tão conturbada quanto a minha: o pai de Sebastian vive em Itália com a amante, a mãe é extremamente Católica (e o rapaz tem com ela uma relação complicada), a irmã Julia vive como toda a boa jovem aristocrática deste período deve viver e é em mais do que um aspecto semelhante a Sebastian, o irmão mais velho que toma para si toda a responsabilidade de manter a respeitabilidade familiar, a irmã mais nova que ainda na infância consegue ser espantosa e extraordinariamente beata. A família de Sebastian parece viver sob a sufocante sombra do Catolicismo, quer o repudiem e odeiem, quer o sigam cegamente. E é quando Charles os começa a conhecer, e ao lado mais negro de Sebastian, que descobre que as coisas nem sempre são tão lineares quanto parecem.

Não vou colocar aqui spoilers, mas o livro é genial. Por toda a parte, Waugh faz um trabalho fenomenal, quer descrevendo frescos e estátuas extremamente belos em Brideshead, quer retratando as personagens (tão profundamente comoventes). A comida e bebida (vinhos, lanches, e até os famosos morangos com champanhe), as festas, o quotidiano de um período marcante são descritos com uma delicadeza e atenção ao pormenor fantásticos. E não só; Waugh vai ainda mais longe com a acutileza com que consegue mostrar e gracejar as suas personagens e situações.

Brideshead Revisited é exactamente tudo aquilo que um bom romance deve ser. É absorvente, é comevente, é profundamente emocionante. As personagens são de carne e osso na medida correcta, as paisagens são soberbas, e a aspereza de Waugh apenas surge quando deve surgir. Quer aceitemos o livro como um comovente apelo barra crítica social e religiosa com personagens baseadas em pessoas verdadeiras, quer o aceitemos apenas como uma pintura minuciosa de toda uma era, o facto é que é um livro verdadeiramente maravilhoso. Quaisquer palavras que eu possa colocar neste blog ficam aquém daquilo que eu realmente gostaria de conseguir dizer… por isso, façam a vós mesmos um favor, e vão buscar o Brideshead Revisited. Agora.